terça-feira, 5 de janeiro de 2010

4º espectáculo

A CURVA

de Tankred Dorst

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No período subsequente houve imensas dificuldades em estabilizar um núcleo duro de pessoas para um trabalho regular, devido à grande hemorragia de jovens, que permitisse um crescimento artístico de forma sustentada e consistente. Foi um sonho sempre perseguido mas frequentemente adiado nesta fase. Daí que projectos como a segunda tentativa de montagem de “À Espera de Godot” de Samuel Beckett, ou de “O Pedido de Casamento”, “O Urso” e “O Aniversário do Banco” de Anton Tchekov tenham falhado. Mas a clara aposta na formação dos elementos do grupo manteve-se inalterável, bem como na escolha de um repertório digno dos objectivos traçados.


Após toda esta grande turbulência houve o desembocar na peça "A Curva" de Tankred Dorst, estreada em 29 de Julho de 1973, onde de novo de forma clara se assumia a intenção de fazer diferente de tudo o que até então existia ou fora realizado no concelho e no Baixo Mondego. Este espectáculo surgiu da sequência de um dos muitos espectáculos vistos e discutidos pelos elementos do grupo, na produção do Grupo 4 encenada pelo Fernando Gusmão. A sua montagem foi mesmo muito determinante para o crescimento artístico do CITEC, para além de ter sido o corte definitivo com o tabu do tempo de duração dos espectáculos e com a utilização do pano de boca. A cena estava toda aberta e os espectadores à medida que iam entrando viam logo tudo o que se passava em palco, os últimos momentos antes do espectáculo propriamente dito começar, desde alguns exercícios de aquecimento físico e vocal até aos retoques finais na caracterização. Na preparação deste espectáculo houve uma acção de formação orientada pelo Fernando Gusmão, que de forma amiga e solidária deu ainda o seu contributo na discussão e análise de pistas para a sua encenação. Com esta produção o CITEC ultrapassou de vez as fronteiras do seu burgo e ganhou a sua carta de alforria.

(…)

* Excerto de “Contributo para a História do CITEC – Montemor-o-Velho (1970-1974)” publicado na Revista Monte Mayor, editado pelo CMMV

Ficha técnica do espectáculo:

Elenco: António Oliveira, Deolindo Pessoa e Henrique Milheiro

Voz off: Marilia Oliveira

Montagem, Som e Luz: António Melanda, Carlos Alberto Cunha, Francisco Morais Jorge, Joaquim Argel, José Maurício, e Miguel Leitão

Encenação: Deolindo L. Pessoa

Estreia: 29 de Julho de 1973.


Opinião de um dos actores

Foi a primeira vez que interpretei uma personagem teatral, com esta peça “A Curva” de Tankred Dorst. A princípio pensava que não tinha jeito nenhum para representar, mas dado que o elemento a quem inicialmente foi distribuído o papel que desempenho não o podia fazer, fui levado para esta experiência nova e não há dúvida que ao fim de algum tempo perdemos todos os complexos e ficamos mais ricos culturalmente.

Demorámos cerca de um ano a ensaiar esta peça (aos fins de semana é claro) e já andamos a representá-la há perto de dois anos e ao fim deste tempo encontro-me também um tanto saturado. Penso que se tenho começado por um papel menos importante, isto é, mais pequeno, porque em teatro tudo é importante (actores secundários, carpinteiros, electricistas, ponto, etc.), talvez não me saturasse assim tão facilmente.

Com isto não quero dizer que abandonei totalmente o teatro amador, continuo a dar-lhe toda a minha colaboração, mas não como actor e sim noutras tarefas que lhe são inerentes.

Quanto ao conteúdo da peça, julgo que é actual (…), tanto mais que pretendemos mostrar às pessoas que o que está mal pode ser transformado para bem de todos. Se porventura não conseguimos que seja claro esta intenção, é porque houve falhas na nossa representação (...). O diálogo final com as pessoas que assistem aos nossos espectáculos é fundamental, para elas e para nós, porque os reparos que nos são feitos servem para aperfeiçoar a nossa representação e capacidade de intervenção.

António Oliveira (Junho de 1975)

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